Bicho de Goiaba

Os melhores microfones para podcasts para todos os bolsos

Written by Renato Bontempo | 11/10/23 18:12

Perguntar qual é o melhor microfone para podcast é como perguntar qual é o melhor carro. A resposta honesta começa com outra pergunta: para gravar onde, com quantas pessoas e com quanto?

Este guia inverte a lógica das listas de equipamento. Antes de indicar modelo, ele passa pelas três decisões que realmente definem o som do seu podcast. Depois disso, sim, os 14 microfones separados por faixa de uso. No fim, um microfone de duzentos reais numa sala tratada vence um de três mil numa sala vazia, todas as vezes.

A resposta curta

Se você quer parar de ler aqui: para a maioria dos podcasts, o microfone certo é um dinâmico card&ioacute;ide com saída dupla USB e XLR. Ele perdoa a sala que você tem hoje, funciona ligado direto no computador e continua servindo quando você montar um estúdio de verdade. O Samson Q2U e o Audio-Technica ATR2100x são os representantes clássicos dessa categoria.

Os microfones que a gente usa

Vale dizer de onde essas recomendações vêm. Nas produções da Bicho de Goiaba, os microfones que passaram pelo nosso parque são o Samson Q2U, o Audio-Technica ATR2100x, o MXL990, o Shure SM58 e o Shure SM7B.

Repare que a lista atravessa as três faixas deste guia — do dinâmico de entrada ao microfone de locução. Isso não é indecisão: é que produção de podcast não tem um microfone certo, tem o microfone certo para cada situação. As indicações abaixo saem daí.

Decisão 1: dinâmico ou condensador (quem decide é a sala)

Esta é a escolha que mais afeta o resultado, e a que mais gente erra.

O condensador é mais sensível. Ele capta detalhe, respiração, brilho na voz — e também o ar-condicionado, o vizinho e o eco da parede sem cortina. É o microfone dos estúdios, e ele pressupõe um estúdio.

O dinâmico é menos sensível por construção. Capta bem o que está perto e ignora boa parte do que está longe. Numa sala comum — escritório, quarto, home office — isso deixa de ser limitação e vira vantagem.

A regra prática: se você não tratou a sala, use dinâmico. Um condensador numa sala reverberante entrega um áudio que nenhuma edição conserta, porque o eco entra junto com a voz, no mesmo instante, e não dá para separar depois.

Decisão 2: USB ou XLR (quem decide é o número de pessoas)

USB liga direto no computador. Não precisa de interface nem de mesa. É o caminho de quem grava sozinho ou remoto.

XLR é o conector profissional. Exige uma interface de áudio entre o microfone e o computador, o que soma custo — mas é o que permite gravar duas, três, quatro pessoas na mesma sala em canais separados.

O detalhe que economiza dinheiro: alguns microfones têm as duas saídas. Você começa no USB e, quando a produção crescer, o mesmo microfone entra na interface pelo XLR. É por isso que a saída dupla aparece tanto neste guia: ela adia uma compra sem adiar a qualidade.

E um alerta que vale mais que qualquer especificação: dois microfones USB no mesmo computador raramente funcionam bem. O sistema trata cada um como uma placa de som independente, os relógios internos correm em velocidades ligeiramente diferentes e a gravação desalinha ao longo do episódio. Para gravar com convidado presencial, o caminho é XLR com interface.

Decisão 3: quanto investir

A curva de retorno do microfone é desigual. A diferença entre um microfone ruim e um bom é enorme. Entre um bom e um excelente, é perceptível para quem trabalha com áudio e quase invisível para o ouvinte no fone do celular dentro do ônibus.

Onde o dinheiro rende mais, em ordem:

  1. Sair do microfone do celular ou do headset gamer. Este é o salto que o ouvinte percebe.
  2. Tratar minimamente a sala. Cortina, tapete, estante cheia de livros. Custa pouco e muda muito.
  3. Um suporte decente e um pop filter. Microfone apoiado na mesa capta batida de teclado e trepidação.
  4. Só então, um microfone melhor.

Quem inverte essa ordem compra um SM7B e grava numa sala com eco. O resultado fica pior que um Q2U bem posicionado.

Microfones para quem está começando

1. Samson Q2U

Dinâmico card&ioacute;ide com USB e XLR. Costuma vir com tripé de mesa, cabo e espuma na caixa, o que significa que ele grava no dia em que chega. É o padrão de entrada há anos e envelheceu bem, porque a proposta nunca dependeu de moda.

É um dos microfones que usamos nas produções da BDG. Costuma ser também o mais barato desta lista — na prática, ele é o genérico do ATR2100x logo abaixo: mesmo conceito, mesma saída dupla, preço menor. Se o orçamento aperta, o Q2U entrega quase tudo que o Audio-Technica entrega.

2. Audio-Technica ATR2100x

Mesma ideia do Q2U, com acabamento um pouco superior e saída de fone com monitoramento direto — você se ouve enquanto fala, sem atraso, o que ajuda a controlar volume e distância da boca. Temos um post inteiro dedicado a ele, com unboxing e o motivo de continuar sendo a nossa recomendação padrão.

Também faz parte do nosso equipamento, e é a nossa recomendação padrão para quem está montando o primeiro setup.

3. Blue Snowball Ice

Condensador USB de entrada, com design que virou referência visual da categoria. É simples de usar e barato, mas vale lembrar da Decisão 1: por ser condensador, ele vai captar a sala junto com a voz. Funciona bem em ambiente silencioso e com pouca reverberação.

4. Rode Smartlav+

Caso à parte: é um lapela que liga no celular. Não substitui os de cima em qualidade, mas resolve gravação externa, entrevista em pé e situações em que carregar equipamento não é opção.

Microfones para o podcaster profissional

5. Rode Podcaster

Dinâmico USB pensado para locução. Corpo pesado, boa rejeição do ambiente e saída de fone embutida. É a opção de quem quer som de rádio sem montar cadeia de XLR.

6. Blue Yeti

Condensador USB com múltiplos padrões de captação. É o microfone mais popular da categoria e também o mais mal utilizado: por ser condensador, exige a sala que a maioria de quem compra não tem. Numa sala tratada, entrega muito. Fora dela, entrega o eco junto.

7. MXL990

Condensador XLR de diafragma grande, com preço de entrada para a categoria. Timbre brilhante, que favorece vozes mais escuras. Pede interface e sala razoável.

Usamos esse aqui na BDG. Ele é o representante do condensador nesta lista — e serve de lembrete da Decisão 1: quando ele entra, a sala precisa estar resolvida antes.

8. Shure SM58

O microfone de palco mais vendido da história e um ótimo microfone de podcast quase por acidente. Dinâmico, praticamente indestrutível e fácil de achar usado no Brasil — o que, aqui, conta muito. Só XLR.

Está no nosso parque também. A vantagem prática no Brasil é a disponibilidade: é o microfone mais fácil de achar, novo ou usado, em qualquer loja de instrumento do país — o que importa quando você precisa de um a mais no dia da gravação.

9. AKG Lyra

Condensador USB com quatro modos de captação, voltado a quem grava mais de uma fonte sem interface: entrevista frente a frente, instrumento junto da voz, ambiente. É onde os múltiplos padrões realmente servem para alguma coisa.

10. Samson Q9U

O irmão mais velho do Q2U: dinâmico de broadcast com USB e XLR, corpo maior e resposta mais encorpada. Mantém a lógica da saída dupla, que é o que faz esses microfones durarem várias fases da produção.

Microfones de alta performance

Faixa em que a escolha deixa de ser técnica e passa a ser de timbre. Cada um destes tem assinatura sonora própria, e a decisão é sobre qual combina com a voz de quem apresenta.

11. Heil PR40

Dinâmico de estúdio com resposta ampla e boa rejeição traseira. Muito popular entre podcasters americanos, bem menos comum no Brasil — o que costuma significar espera e importação.

12. Shure SM7B

O microfone de rádio e de locução por excelência. Rejeita muito bem o ambiente e trata graves com generosidade. Exige muito ganho: interfaces de entrada não dão conta sozinhas, e quase sempre entra um pré-amplificador auxiliar no orçamento. Contar com esse custo extra desde o começo evita frustração.

É o topo do nosso parque de microfones. E o alerta do ganho não é teórico: é a primeira coisa que a gente confere quando ele entra numa montagem.

E tem um motivo a mais, que as listas de equipamento não costumam mencionar: o SM7B virou o queridinho dos videocasts. Além da qualidade, ele tem o visual de estúdio de rádio — aquela silhueta que todo mundo reconhece — e isso rende na frente da câmera. Quando o podcast também é vídeo, o microfone deixa de ser só captação e passa a ser parte do cenário. É um critério que não existe no áudio puro e que pesa bastante quando a produção é gravada em imagem.

13. Rode NT1-A

Condensador conhecido pelo ruído próprio muito baixo. Aqui não tem meio-termo: pede sala tratada. Compensa quando a produção é narrativa e o timbre importa mais que a praticidade.

14. Electro-Voice RE20

Dinâmico de broadcast com tecnologia que reduz o efeito de proximidade — aquele engrossamento da voz quando se chega perto do microfone. Isso o torna perdoador com quem se mexe enquanto fala, que é a maioria das pessoas em entrevista.

Três coisas que não fazem a diferença que prometem

Padrão de captação múltiplo. Microfones que oferecem omnidirecional, bidirecional e estéreo vendem versatilidade. Na prática, a quase totalidade dos podcasts grava em card&ioacute;ide e nunca mexe na chave.

Taxa de amostragem alta. Gravar em 96 kHz não deixa a voz melhor que 48 kHz num podcast. Deixa o arquivo maior.

O microfone caro na sala ruim. Já foi dito lá em cima, mas é o erro mais caro e o mais comum, então vale repetir.

Como testar antes de decidir

Grave a mesma frase, na mesma posição, com o microfone que você tem hoje. Ouça de fone. Depois ouça no celular, no volume em que as pessoas realmente escutam podcast.

A maior parte das dúvidas sobre equipamento se resolve nesse teste, porque a diferença que parece enorme no fone de estúdio muitas vezes some no fone de trinta reais — que é o que a sua audiência usa.

Então, qual comprar?

  • Grava sozinho, sala comum, primeiro podcast: Samson Q2U ou ATR2100x.
  • Grava sozinho e quer que dure anos: Samson Q9U ou Rode Podcaster.
  • Grava com convidado presencial: dois dinâmicos XLR mais interface de duas entradas.
  • Sala tratada, produção narrativa: Rode NT1-A ou MXL990.
  • Locução, voz grave, orçamento confortável: Shure SM7B, contando o pré-amplificador, ou Electro-Voice RE20.
  • Videocast, com câmera: Shure SM7B — soma qualidade de locução e presença visual de estúdio.
  • Gravação externa ou em movimento: Rode Smartlav+ no celular.

Leia também

Referências

Uma versão anterior deste artigo foi baseada no guia de microfones do The Podcast Host, referência internacional em equipamento para podcast. As fotos são material de divulgação dos fabricantes. O texto atual foi reescrito integralmente pela equipe da Bicho de Goiaba, com estrutura, critérios e recomendações próprias.